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Leve, melancólico e instigante, filme da Netflix é um afago na alma – Revista Bula

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Os costumes de sociedades milenares como a da Índia são, muitas vezes, pouco racionais à luz da racionalidade ocidental. Os funerais, por exemplo, não são somente a ocasião em que os corpos são velados, entre choro, fofoca, brigas e tramoias, até que o cadáver seja entregue às chamas, que reduzem tudo as cinzas que serão jogadas no rio Ganges. Esses são momentos em que se reafirmam as hierarquias e se tem claro quem manda e quem obedece numa família. Dentre os milhões de famílias hindus que celebram a partida de um ente querido para o além-mundo estão os Giris, protagonistas de “Garota Estranha” (2021), cujo filho mais velho, Astik, morrera prematuramente.  Sandhya, a viúva, interpretada por Sanya Malhotra, não consegue se estristecer como os demais parentes, mas a culpa não é dela. Se alguém tem alguma responsabilidade nessa história essa pessoa é o próprio Astik, que morreu tão cedo, ou mais apropriadamente, quem os fez se casarem sem que se conhecessem. O casamento seguiu a tradição e só acabou com a morte; o problema é que ela levou apenas cinco meses para chegar e eles não tiveram o tempo necessário para saberem sequer o fundamental um sobre o outro.
Formada e com um mestrado em literatura inglesa, Sandhya nunca conseguiu se apaixonar pelo homem com quem se casara. Não tem uma carreira e raramente pegava num livro, tão atarefada estava sempre, absorvida pelos tantos afazeres domésticos. Astik, por outro lado, chegara a vice-presidente da empresa em que trabalhava, tinha um salário que cobria as despesas dos dois e ainda sobrava e mantinha um caso extraconjugal com uma mulher cuja foto a esposa oficial descobriu perdida em meio às roupas do defunto, reviradas num fundo de armário. Mesmo sem amar o marido morto, Sandhya está aborrecida, vítima de sentimentos controversos como revolta, raiva, pena, tudo ao mesmo tempo, sem qualquer chance de remissão.
“Garota Estranha” não retrata só o ponto de vista de Sandhya sobre o que ela passa a achar de Astik depois de sua morte, tendo em retrospecto o pouco que pôde ver dele em vida. O diretor Umesh Bist aproveita um evento banal, a morte — malgrado se trate da morte de alguém que se foi ainda muito jovem —, para discorrer acerca de como o fim da vida é encarado sob determinadas circunstâncias. Escolhe para tanto valer-se de uma típica família indiana, numerosa, em que são comuns as interferências de uns nas decisões dos outros, o que, por seu turno, degringola em um clima de tensão e mesmo conspiração. De repente, Astik e Sandhya não estão mais sozinhos e entram em cena os pais e os sogros da protagonista, além de seus irmãos, tios, tias, primos, a avó, que ouve tudo com atenção e se presta a uma devotada confidente, e Nazia, a melhor amiga — uma personagem essencial em narrativas como essa, mormente em se passando no seio de um autêntico lar hindu —, de Shruti Sharma.
Esta é uma história feita de momentos. Momentos que iluminam as hipocrisias e a ganância das famílias, o senso de propriedade e sua autorreferência. Momentos que apontam a natureza confusa de um luto que comemora a partida de alguém que se ama e se vai para muito longe antes da hora — ou antes da hora como nós entendemos; momentos que nos fazem encontrar deleite na adversidade. Bist, que também escreveu o roteiro, faz de sua história um projetor. Ele estampa em seu filme situações que considera relevantes demais para serem ignoradas ou relativizadas, e cada uma das cenas de “Garota Estranha” adquire um significado que mesmo povos a milhares de quilômetros da Índia, física e espiritualmente, absorvem sua força.
Numa das cenas iniciais, já se tem uma ideia do caos que vai se instalar em breve. O pai de Astik, Shivendra, personagem de Ashutosh Rana, recebe os parentes que começam a chegar de toda a Índia para o funeral, preparado não sem algum apuro financeiro, tanto por parte dele como pela da família da viúva. Entre eles está Tarun, de Rajesh Tailang, o irmão com quem não tinha mais contato, que desembarca com boa parte dos seus. A forma como Bist desenvolve os conflitos que pontuam as vidas dos dois e se estendem para os membros das famílias que constituíram — mesmo que ninguém saiba direito por que — é uma boa pista de como indianos conduzem certas questões, inclusive as de vida e morte. Enquanto isso, outro plano se abre para três mulheres no pátio, especulando sobre o estado de outro filho de Shivendra, Aditya, desempregado, mas ardiloso o bastante para fazer circular o boato sobre sua intenção de abrir um restaurante. Esse personagem, encarnado com uma discrição precisa por Nakul Roshan Sahdev, é sintomático do quão longe vão as maquinações e as inclinações pérfidas de pessoas que se dizem íntimas, o que deixa clara a vontade do diretor de frisar essa noção falsa do amor que se impõe apenas porque um grupo de indivíduos carrega nas veias o mesmo sangue. À medida que o entrevero de Shivendra e Tarun toma corpo, reacendendo velhas chamas sobre temas que se supunham mortos faz tempo, outros parentes se incorporam à balbúrdia, com um leve respiro cômico envolvendo uma sequência paralela e meio escatológica. O trecho tem duração de cerca de menos de três minutos, mas em tão pouco tempo se é possível ver que a discórdia, o ressentimento e, o mais importante, a diferença de classe, praga numa sociedade como a indiana, fundada na segregação por castas, às quais se está predestinado desde antes do nascimento, não dão descanso às pessoas nem com a visita indesejada da morte.
O acerto de contas entre Sandhya e Akanksha Roy, a mulher da foto, é o ponto alto do filme. Apesar da protagonista não dispor da classe da personagem de Sayani Gupta — que lhe confere a frieza de temperamento capaz de fazê-la encarar a esposa do amante sem medo de levar umas bofetadas no café onde se encontram —, Sandhya se prova uma dama tão sofisticada quanto a antagonista, com o mesmo poder de sedução que ela (e quem sabe ainda mais, uma vez que foi ela quem subiu ao altar). Mas “Garota Estranha” é, como se diz desde o início, um filme que põe em xeque as convenções do povo da Índia e por essa razão Sandhya não perdoa ninguém, nem Akanksha, por não ter se casado com Astik, nem a si mesma por ter se casado — e muito menos o próprio Astik por tê-las enganado tão bem. Mas também não é isso; no fundo, Sandhya tem a convicção de que não fora enganada, mas que se deixara enganar, presa das tradições que fazem acabam com o futuro de mulheres como ela. É isso que não perdoa em si mesma.
O encerramento de “Garota Estranha” é marcado por uma escolha um tanto simplória de Umesh Bist, que não deita tudo fora, mas compromete muito da cuidadosa elaboração com que levara a história até então. Seu intuito é mesmo fomentar o questionamento sobre a dita moralidade de seu povo, que, na verdade, encerra episódios de refinada impostura. Este é um filme corajoso, que destoa em boa medida da Bollywood rosicler que o Ocidente conhece.
Filme: Garota Estranha
Direção: Umesh Bist
Ano: 2021
Gênero: Drama/Comédia
Nota: 9/10

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