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Conheça a cantora de São Chico que faz sucesso mundo afora – Jornal NH

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Nascida em São Francisco de Paula, a cantora Maria Rita Stumpf tem uma carreira globalizada. Ela foi revelada ainda nos anos 80 em festivais da canção na Serra gaúcha, e fez carreira no eixo Rio-São Paulo, passando pela cena alternativa com um estilo que mescla MPB, eletrônica e toques de world music. Após uma parada, ela voltou à cena musical em 2015, depois que seu álbum Brasileira, de 1988, foi redescoberto por DJs europeus.
Agora ela acaba de lançar seu quarto álbum, Ver Tente, que está nas plataformas de streaming. Lançou também um videoclipe gravado no Xingu e Rio de Janeiro, com índios de várias etnias. Nesta entrevista, ela fala sobre suas ligações com a região e sua proposta musical.

Maria Rita Stumpf
Maria Rita Stumpf Foto: Henrique Santian/Divulgação

ABC+: Como foi a retomada da sua carreira? Por que agora? E por que o hiato?
Maria Rita Stumpf – A retomada se deu em 2015 quando fui procurada pelo DJ anglo espanhol John Gomez, que havia encontrado o meu álbum Brasileira, de 1988, no Japão, e comprou todos os que achou. Ele desenvolveu um álbum a partir do meu primeiro registro onde estão comigo o grande pianista e arranjador Luiz Eça, o icônico grupo Uaktí e o músico mestre , também gaúcho, hoje vivendo na Bahia e no Maranhão, Ricardo Bordini. A coletânea se chamou Outro Tempo e contempla música brasileira dos anos 80 e 90 que ele achava que não teve o devido reconhecimento. Foi lançada mundialmente em fevereiro de 2017 e já vendeu quase oito mil LPs e está nas plataformas digitais.

Em seguida os DJs brasileiros da Festa Selvagem também apareceram e criaram o selo Selva Discos, especialmente para relançar o LP Brasileira e fizemos, também em 2017, a regravação com os DJs da minha música mais conhecida, o Cântico Brasileiro No 3, que fala da situação desastrosa que enfrentam os nossos povos indígenas e foi inspirada por um acontecimento em Nonoai em 1978, foi descoberta por DJs e toca mundo afora.

O LP Brasileira, que foi relançado pela Alemanha em 2017, se tornou item de colecionadores internacionais e isso abriu o caminho aliado ao interesse dos DJs por minha música. Eu voltei ao palco em 2017. Em 2019, entrei em estúdio outra vez e gravei o álbum Inkiri Om, lançado em plena pandemia de forma digital. Ver Tente já é o segundo álbum depois da “volta”. O hiato foi porque em 1993 a situação era muito difícil economicamente e a sobrevivência se impôs.
ABC+: Sua carreira passa pela música eletrônica, pela MPB e pela cena alternativa, que são raízes ainda presentes no seu trabalho atual. Na sua avaliação, as plataformas de streaming representam uma nova oportunidade para estas sonoridades conquistarem espaço?
Maria Rita Stumpf – A Internet e posteriormente a música digital transformaram completamente o panorama das artes, não somente da música, e os meios de produção e de divulgação foram democratizados. Hoje é possível ouvir música de qualquer parte do mundo e também levar a sua para qualquer parte. Minha música toca hoje em mais de 110 países. Todos os tipos de música, incluindo a música folclórica, a clássica e até a história da música se beneficiaram com a possibilidade digital. Mas o vinil, o K7, o livro, a pintura seguem tendo seu lugar. Espero poder lançar um dia Inkiri Om e Ver Tente em vinil.
ABC+: Você saiu do RS ainda nos anos 80. Manteve contato por aqui?
Maria Rita Stumpf – Toda a minha família mora no RS. Venho constantemente a Porto Alegre e vejo alguns amigos e também vou a Caxias do Sul de vez em quando ver os amigos. Minha família tem casa no lugar onde eu nasci, que pertencia a São Francisco de Paula e hoje pertence a Jaquirana. Nasci no Morro Grande, Princesa dos Campos, a uns 30 km de Bom Jesus. Sempre que posso vou para este lugar maravilhoso perto do Itaimbezinho nos lindos Aparados da Serra.
ABC+: Quais recordações você tem de São Francisco de Paula?
Maria Rita Stumpf – Gosto da cidade de São Francisco, onde passo às vezes no rumo das terras da família. Tem uma livraria maravilhosa e muito charme. Levei tudo comigo, é minha infância e minha formação, mas foi no mundo rural. A primeira cidade em que vivi foi Caxias do Sul, quando minha família se mudou para lá para que os seis irmãos pudessem continuar os estudos, já que na Princesa dos Campos tinha somente até o terceiro ano, creio.
ABC+: Uma cantora vinda do sul, parcerias por todo o Brasil, um videoclipe no Xingu… É uma opção estética ou esse diálogo de norte a sul é uma convicção?
Maria Rita Stumpf – Vivo na realidade que vejo em meu país e no meu planeta, como uma totalidade. Não sou só fruto de vivência no Brasil. Estive nove vezes na Índia, estudei Budismo no Arizona morando num trailer, estudei outras filosofias e quis conhecer distintas formas de vida. Estive num enterro em Bali, onde vi uma orquestra de gamelão. Tudo se processa e acaba aparecendo na minha criação de alguma forma. O universo negro e indígena, assim como dos povos asiáticos, árabes, orientais, sempre me atraíram muito. Sou apenas um ser do Planeta Terra. Sou e me considero uma viajante humanista que se interessa pela dor e pela alegria de todos os seres.
ABC+: Falando em convicções, seu novo álbum, Ver Tente, inclui uma releitura de Pavão Mysteriozo, de 1974, famosa pelo subtexto político… Como foi essa escolha?
Maria Rita Stumpf –Eu gravei os dois primeiros minutos de Pavão Mysteriozo do grande Ednardo em 1993. Se escutarem bem vão ouvir a melodia do Hino da Bandeira embaixo da minha voz e também menções à Nona Sinfonia de Beethoven. Em 2022 gravei os restantes 2 minutos com um músico que admiro muito, Danilo Andrade e começamos da última nota aguda onde Farlley Derze, que gravou comigo em 1993, tinha terminado. Logo lançaremos o clipe desta gravação e a história que conta o Pavão, que é baseado num cordel e faz uma metáfora com a princesa presa no castelo que em realidade é a democracia oprimida pela ditadura nos anos 70, anos de extrema censura, onde os artistas precisavam de muita criatividade para falar o que queriam.

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